"Do pampa gaúcho ao cerrado mato-grossense: onde os pioneiros chegaram em 1986 e criaram o maior fenômeno de crescimento do Brasil"
A última cidade desta série é também a mais explosiva. Fundada há menos de 40 anos por famílias gaúchas em busca de terra nova, Querência cresceu 124% em 12 anos, tornando-se a 13ª maior produção agrícola do país e a cidade com o maior PIB per capita desta série — R$ 140.882. O futuro do agronegócio brasileiro tem endereço: Querência-MT, km 0 do século XXI.
A história de Querência começa longe — no Rio Grande do Sul, em 1975. A COOPERCANA, fundada em 7 de julho de 1975 na cidade gaúcha de Não-Me-Toque, sob liderança do pastor Norberto Schwantes, organizou o projeto de migração de famílias do sul do Brasil para o nordeste mato-grossense. O nome "Querência" vem dos pampas gaúchos — significa "lar" ou "morada" — e reflete o que esses pioneiros buscavam: um novo lar em terra nova.
As primeiras famílias chegaram em 21 de maio de 1986, enfrentando isolamento severo: sem iluminação pública, energia elétrica de apenas um gerador de 325 KVA, um único posto telefônico e estradas precárias. O projeto foi organizado em 881 parcelas — lotes rurais de 200 hectares e chácaras — com predominância de descendentes de alemães, italianos e poloneses do norte do RS, oeste de SC e sudoeste do PR.
Em 1990, já eram 600 lotes vendidos e 1.800 habitantes. Em 19 de dezembro de 1991, Querência foi elevada a município, desmembrada de Canarana e São Félix do Araguaia. O que veio depois é uma das histórias de crescimento mais extraordinárias do Brasil contemporâneo.
Enquanto a média de crescimento das cidades vizinhas é de 2% ao ano, Querência cresce a 6,18% ao ano — mais de três vezes a velocidade regional. O resultado é histórico: entre 2010 e 2022, a população cresceu +124%, colocando Querência como o 6º município que mais cresceu em todo o Brasil. Em 2023, só em maio foram geradas 652 novas vagas de emprego formais.
O motor desse crescimento é o agronegócio. Multinacionais como Cargill, Bunge, ADM, Amaggi, Louis Dreyfus, Caramuru e SLC Agrícola instalaram-se em Querência, abrindo empregos e atraindo trabalhadores de todo o Brasil. Em 2023, Querência liderou as contratações de toda a região do Médio Araguaia — e a tendência é de aceleração com a expansão do algodão e dos serviços urbanos.
Querência possui aproximadamente 800 mil hectares destinados ao cultivo, com destaque para 320 mil hectares de soja, 100 mil hectares de milho safrinha e áreas crescentes de algodão e gergelim. Na safra 2024–2025, a região leste de MT registrou média de 62,7 sacas de soja por hectare — com Querência entre as mais produtivas. O município ocupa a 13ª posição no Ranking Nacional de Produção Agrícola e é o 5º maior produtor do estado de Mato Grosso.
O PIB per capita de R$ 140.882 (IBGE 2023) — e R$ 231.667 segundo dados da Prefeitura (2021) — coloca Querência entre os municípios com maior renda por habitante de todo o Brasil, em categoria semelhante à de cidades do interior de São Paulo com décadas de industrialização. Em apenas 38 anos, a terra pioneira gaúcha criou uma das economias mais dinâmicas do agronegócio global.
Receitas brutas de R$ 321,8 milhões e despesas de R$ 300,8 milhões — o maior orçamento desta série, sustentado pelo agronegócio e pelas transferências de 72,21% de fontes externas.
O melhor indicador de mortalidade infantil de toda a série de 25 cidades. A renda elevada do agronegócio se traduz em melhor acesso à saúde — modelo a ser expandido.
Em 9 de novembro de 2023, Querência foi incluída entre os municípios do bioma Amazônia com prioridade para ações de prevenção e controle do desmatamento — desafio que acompanha o crescimento.
O capital humano cresce junto com o PIB. A escolarização alta e o IDHM em expansão indicam que Querência não só produz grãos — está construindo sua elite técnica e gerencial local.
Querência é um caso único de transplante cultural bem-sucedido. As famílias que chegaram do sul — em sua maioria descendentes de imigrantes europeus (alemães, italianos, poloneses) estabelecidos no RS e SC — trouxeram consigo a cultura cooperativista, a ética do trabalho e a vocação agrícola que definiram o sucesso da colonização.
A COOPERCANA (fundada em Não-Me-Toque/RS em 1975) foi o instrumento logístico e social que viabilizou a migração. O pastor Norberto Schwantes, seu fundador, organizou a venda dos 881 lotes (200 hectares cada) e coordenou a chegada das primeiras famílias — que encontraram um território sem infraestrutura básica e transformaram em menos de quatro décadas num dos municípios mais produtivos do Brasil.
Dentro do território de Querência encontra-se ainda parte da Reserva Indígena do Xingu — dimensão territorial que adiciona complexidade à gestão do município e é parte da identidade plural do nordeste mato-grossense.
A distância de Cuiabá é o principal gargalo de Querência. Toda a soja, milho e algodão precisam percorrer centenas de quilômetros até os portos fluviais e graneleiros — elevando o custo logístico e tornando a demanda por melhoria de rodovias e infraestrutura uma pauta permanente e urgente.
| Ranking | Cidade | PIB pc | Crescimento | IDHM | Destaque |
|---|---|---|---|---|---|
| 🏆 1º | Querência — CITY-025 | R$ 140k | +124% | 0,692 | Soja · 13º BR |
| 2º | Colíder — CITY-022 | R$ 62k | Normal | 0,713 | Polo Norte |
| 3º | Água Boa — CITY-021 | R$ 42k | Moderado | 0,716 | Polo Araguaia |
| 4º | Guarantã do Norte — CITY-023 | R$ 41k | Moderado | 0,703 | Fronteira PA |
| 5º | Poconé — CITY-024 | R$ 27k | Baixo | 0,652 | Pantanal · Ouro |
Em 1986, não havia nada. Mata, cerrado e uma promessa. Quarenta anos depois, Querência tem 12 multinacionais, 800 mil hectares cultivados, R$ 140 mil de PIB por habitante e o maior crescimento populacional do Brasil. Isso não aconteceu por acidente — aconteceu porque famílias gaúchas com cultura cooperativista, ética do trabalho e disposição para o risco fizeram funcionar o que o Estado dificilmente consegue: transformar fronteira em prosperidade.
Querência é o melhor e o mais desafiador da série. O melhor: economia que brilha, emprego que cresce, renda que distribui. O mais desafiador: o desmatamento que não parou, a distância que encarece tudo, o IDHM que ainda não acompanha o PIB. Crescer rápido demais tem custos — e o bioma é o primeiro a pagar.
Para os próximos 40 anos, Querência tem uma única pergunta a responder: vai crescer com o cerrado e a Amazônia — ou apesar deles? A resposta a essa pergunta definirá não só Querência, mas o modelo do agronegócio brasileiro para o mundo.
"Em 1986, um pastor gaúcho chegou ao cerrado mato-grossense com uma cooperativa, uma promessa e 350 famílias dispostas a tudo. Quarenta anos depois, essa promessa vale R$ 140 mil por habitante, ocupa 800 mil hectares e alimenta parte do mundo. Querência não é só uma cidade — é a demonstração de que pioneirismo, cooperação e terra fértil podem criar do zero o que décadas de política pública raramente conseguem. E ao mesmo tempo, é o lembrete permanente de que crescimento sem limites não é progresso — é dívida com o futuro. Querência está no cruzamento exato entre o maior orgulho do agronegócio brasileiro e sua maior responsabilidade. E ela sabe disso. Cada grão de soja que sai daqui carrega essa contradição. A pergunta é: o que vai colher junto?"
Da capital Cuiabá ao cerrado de Querência, do Pantanal de Poconé à fronteira amazônica de Guarantã do Norte — esta série mapeou os 25 municípios que concentram 70% da população mato-grossense com dados reais, análises independentes e uma perspectiva que vai além dos números: enxerga as pessoas, os biomas e o futuro.
Próxima fase: Os 119 municípios restantes de Mato Grosso — cada um com sua história, seus dados e seu lugar no maior estado produtor de grãos do Brasil. A jornada continua. O mapa de MT ainda tem muito a revelar.