"Beripoconé — do povo originário à capital do ouro, do Pantanal e do lambadão"
A mais antiga porta do Pantanal mato-grossense. Fundada sobre ouro em 1777, Poconé guarda no seu solo, nos seus rios e na sua alma o peso de 250 anos de história — onde a riqueza mineral encontrou a riqueza natural do maior ecossistema alagado do planeta.
Ver Scorecard UrbanoConnectTudo começou com ouro. Em 1777, o governador da Capitania de Mato Grosso, Luiz de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, descobriu ouro numa região que os povos originários chamavam de Beripoconé — nome da tribo indígena que habitava aquele território. Os colonizadores portugueses fundaram oficialmente o povoado em 21 de janeiro de 1781, com o nome de Arraial de São Pedro d'El Rey.
Em 25 de outubro de 1831, o governo regencial criou o município de Poconé como Villa de Poconé — em um ato histórico: foi a primeira vez que os limites políticos de um município foram definidos em todo o estado de Mato Grosso. Em 1º de julho de 1863, pela Lei Provincial nº 01, Poconé foi elevado à categoria de cidade.
Com o declínio do ouro no século XIX, a pecuária assumiu o protagonismo, aproveitando as vastas pastagens naturais do Pantanal. Em 1982, o ouro voltou: cerca de 4.500 garimpeiros invadiram a região, tornando Poconé novamente um epicentro de mineração — desta vez com consequências ambientais que o município carrega até hoje.
Poconé é, literalmente, uma cidade fundada sobre ouro. A exploração mineral começou em 1777 com métodos artesanais, foi reativada com força total no início da década de 1980 com práticas mecanizadas e altamente predatórias — e ainda persiste em atividade garimpeira ilegal, flagrada e embargada em 2022 na Operação Guardiões do Pantanal.
Em junho de 2022, a Operação Guardiões do Pantanal — deflagrada pela Polícia Civil (DEMA), SEMA-MT e POLITEC — flagrou desmatamento e extração ilegal de ouro em propriedade no município. Foram apreendidos maquinários, destruídos motores dentro das escavações e quatro funcionários responderam por crime ambiental. O responsável pelo garimpo foi indiciado em inquérito policial.
Desde 1995, por exigência dos órgãos ambientais, técnicas menos predatórias foram introduzidas — mas o legado químico de décadas de uso do mercúrio na amalgamação do ouro permanece como cicatriz invisível nos rios e sedimentos da Bacia do Bento Gomes e do Pantanal Norte.
Estudos publicados em periódicos internacionais (Cambridge University Press) estimam que aproximadamente 50 toneladas de mercúrio (Hg) foram emitidas pelos garimpeiros de ouro na Bacia do Rio Bento Gomes, em Poconé, desde os anos 1980. O mercúrio é utilizado no processo de amalgamação para separar o ouro do sedimento — e o que não vai para o ouro vai para o ar, a água e o solo.
A concentração média de mercúrio nos sedimentos finos (<74 µm) da Bacia do Bento Gomes é de 104 nanogramas por grama de sedimento seco — de três a quatro vezes acima do nível de referência natural. Durante a estação chuvosa, grandes quantidades desses sedimentos contaminados são ressuspendidos e transportados para o Pantanal — contaminando peixes, aves, jacarés e, pela cadeia alimentar, humanos.
Pesquisas da EMBRAPA Pantanal documentam contaminação em sedimentos, moluscos, peixes, aves e jacarés. A formação de metilmercúrio — a forma mais tóxica e bioacumulável do elemento — ocorre nos sedimentos, na coluna d'água e no intestino dos peixes. Para o ser humano, níveis elevados causam danos irreversíveis ao sistema nervoso central e rins. A pesca no Pantanal Norte permanece como risco monitorado.
A Transpantaneira começa em Poconé e termina em Porto Jofre — passando por pontes de madeira, campos alagados, jacarés, onças, tuiuiús e capivara em liberdade. É o cartão-postal do Pantanal e o principal ativo turístico do município.
Poconé concentra uma das maiores densidades de fauna silvestre do mundo — jacarés, capivaras, veados, tamanduás e garças nas margens da Transpantaneira.
Distrito de Poconé, Porto Jofre é destino de turistas do mundo inteiro — principal polo de observação de onças-pintadas no planeta, com pousadas e passeios de barco.
A Estância Ecológica SESC Pantanal, o Porto Cercado e dezenas de pousadas ao longo da Transpantaneira recebem turistas nacionais e internacionais o ano inteiro.
O Pantanal tem duas faces: na seca os animais se concentram e o avistamento explode. Na cheia, o espelho d'água cria uma paisagem surreal que atrai fotógrafos do mundo inteiro.
Culturalmente, Poconé é uma das cidades mais ricas de Mato Grosso. É considerada o berço do lambadão cuiabano — gênero musical que surgiu na década de 1980 da fusão de influências da lambada com tradições musicais do Pantanal e do Cuiabá antigo.
A Cavalhada de Poconé, festividade de origem portuguesa, ocorre anualmente durante a Festa de São Benedito em junho — com desfiles de cavaleiros representando exércitos mouros e cristãos, a Dança dos Mascarados, o siriri e o cururu. O centro histórico colorido da cidade e o bolinho de arroz (receita tradicional com arroz socado no pilão, mandioca, coco, leite e canela) completam a identidade cultural única da cidade.
Poconé registra mortalidade infantil de 25,54 óbitos por mil nascidos vivos (2023) — a mais elevada entre as cidades analisadas nesta série, refletindo os desafios de acesso à saúde num município com 27,43% de população rural dispersa em 17 mil km² de Pantanal. Com apenas 1,82 hab/km², levar serviços de saúde ao campo pantaneiro é logisticamente complexo e custoso.
O município conta com estabelecimentos SUS e realiza atendimento básico, mas a especialização médica ainda depende de Cuiabá — a 100 km de distância, o que torna o deslocamento viável mas ainda impõe barreira real para populações ribeirinhas e de difícil acesso durante as cheias do Pantanal.
A taxa de escolarização de 6 a 14 anos é de 98,18% (Censo 2022) — um dos melhores resultados da série, demonstrando acesso satisfatório ao ensino básico mesmo num município de grande extensão territorial e população dispersa. O município conta com 25 estabelecimentos de Ensino Fundamental e 4 de Ensino Médio, com 4.786 matrículas no fundamental e 1.518 no médio.
O IDHM de 0,652 (2010) é o mais baixo da série avaliada — reflexo histórico das desigualdades de uma cidade cujo desenvolvimento foi marcado por ciclos econômicos exploratórios (ouro, garimpo, pecuária) sem correspondente investimento em capital humano e social.
As receitas brutas de Poconé chegaram a R$ 197,7 milhões (2024), com despesas empenhadas de R$ 182,8 milhões — superávit de ~R$ 15 milhões. O PIB per capita de R$ 27.609 (2023) é o mais baixo da série, revelando que apesar da vocação turística e pecuária, a riqueza gerada ainda não se distribui adequadamente entre os 31 mil habitantes.
O município recebeu reajuste no Auxílio Transporte Estudantil (PROMAT) em fevereiro de 2026 — sinal de investimento em permanência escolar — e realiza reparos contínuos em pontes rurais de madeira, infraestrutura essencial num território dominado por rios, corixos e baías pantaneiras.
| Cidade | Pop. | IDHM | PIB pc | Área km² | Destaque |
|---|---|---|---|---|---|
| ⭐ Poconé — CITY-024 | 31.203 | 0,652 | R$ 27k | 17.013 | Portal Pantanal · Ouro |
| Cuiabá | ~650.000 | ~0,785 | — | 3.538 | Capital MT · Referência |
| Barão de Melgaço | ~8.000 | ~0,610 | — | 11.561 | Pantanal central |
| Nossa Sra. do Livramento | ~12.000 | ~0,630 | — | 5.982 | Ouro · Hg · Pantanal |
| Cáceres | ~95.000 | ~0,708 | — | 24.614 | Pantanal Sul |
Poconé é a cidade mais fascinante desta série. Com 250 anos de história, ela foi fundada sobre ouro, atravessou séculos de pecuária, ressurgiu com 4.500 garimpeiros nos anos 1980 — e hoje é porta de entrada para o ecossistema mais biodiverso do planeta. É o paradoxo mato-grossense por excelência: imensa riqueza natural com indicadores sociais abaixo da média.
O ecoturismo de Poconé — com a Transpantaneira, Porto Jofre e a onça-pintada — é o maior ativo natural do município. Recebe turistas de 40 países. Gera receita para pousadas, guias e pescadores. Mas o IDHM de 0,652 e o PIB per capita de R$ 27 mil mostram que essa riqueza ainda não alcança a maioria dos poconeanos. Enquanto o turista paga R$ 800 por noite num ecolodge, 50 toneladas de mercúrio continuam invisíveis nos sedimentos do Bento Gomes.
A agenda de Poconé para o futuro não é difícil de enunciar — é difícil de executar: remediação do passivo de mercúrio, distribuição dos ganhos do turismo, redução da mortalidade infantil rural e formalização do garimpo. Quem resolver isso terá criado um modelo para o mundo inteiro de como uma cidade pantaneira cresce com ouro e com florestas — ao mesmo tempo.
"Em 1777, vieram pelo ouro. Encontraram o Pantanal de brinde — e não entenderam o que tinham nas mãos. Por dois séculos e meio, Poconé escavou, amalgamou, contaminou e criou. Criou gado, criou música, criou cultura, criou a Cavalhada mais bonita do Centro-Oeste. E deixou cinquenta toneladas de mercúrio dormindo nos sedimentos do Bento Gomes. Hoje, o mundo inteiro vem aqui ver a onça. Vem ver o tuiuiú. Vem ver a vida selvagem mais livre que existe. Poconé sempre soube onde estava o tesouro. Só ainda não aprendeu a não envenenê-lo."